A Era do Marketing Total
Tenho pensado cada vez mais que vivemos na era do marketing total, onde não só produtos, mas as próprias relações humanas foram mercantilizadas. Conversar virou performance. Um bate-papo despretensioso rapidamente se transforma em networking. Antes mesmo de ouvir o outro, já me pego, ou percebo no outro, calculando utilidades, possibilidades, ganhos simbólicos. É como se toda interação exigisse uma estratégia, um posicionamento, um “valor agregado”. Às vezes tenho a sensação incômoda de que estamos o tempo todo vendendo um produto invisível: nós mesmos.
Guy Debord já alertava, em A Sociedade do Espetáculo, que o vivido seria substituído por sua representação. Hoje, até o afeto passa por mediação estratégica. Byung-Chul Han, em Psicopolítica e A Sociedade do Cansaço, aprofunda isso ao mostrar como internalizamos a lógica do desempenho: não é mais o capital que nos explora apenas de fora, nós mesmos nos exploramos, transformando cada relação em investimento. Zygmunt Bauman chamou isso de relações líquidas: vínculos frágeis, utilitários, descartáveis, mantidos enquanto oferecem algum retorno emocional, social ou profissional.
O que mais me incomoda é que o verdadeiro luxo do nosso tempo parece ser conversar sem oferecer nada e sem esperar nada em troca. Um diálogo gratuito, um encontro sem finalidade, um silêncio compartilhado tudo isso soa improdutivo, quase suspeito. Marx falava do fetichismo da mercadoria; hoje, esse fetiche avançou sobre as pessoas. Não trocamos apenas coisas, trocamos valor humano, capital simbólico, relevância. E, nesse processo, vamos desaprendendo algo radicalmente simples e profundamente subversivo: estar com o outro sem transformá-lo em meio para um fim. Talvez, num mundo obcecado por estratégia, o gesto mais revolucionário seja justamente esse conversar sem vender, ouvir sem calcular, existir sem performar.



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